Uma menina
Quando dei por mim já era tarde demais, estava no alto de um prédio com uma faca na mão. Não saltei para o abismo, não me cortei para sentir o abismo, apenas fiquei ali. E toda a gente que ali passava, ali me via: Chorosa num alto de um prédio com uma faca na mão.
Na minha cabeça pequenas frases se faziam:
Saltei pequenina
Á corda de uma menina,
Esta perdida, desencontrada
E julgava que podia rir.
Chorei desesperadamente
Por não poder ir contigo,
Para fora deste mundo que me fez
Grande.
Grande de mais para poder saltar,
Para poder brincar
E ser a criança que nunca fui.
Olhei á minha volta, e no terraço do prédio estava uma pessoa que não conhecia. E na minha cabeça ainda ouço vozes:
Tu não o queres fazer,
Tu não queres saltar,
Saí dai,
Olha que te vais magoar!
É a polícia!
Você deveria sair daí.
Apenas me deu mais vontade para fazer o que estava a pensar. Não sentia grande desespero, mas um frio grande. Uma vontade cada vez maior de saltar.
Pára!!
Senti uma dor forte sobre a barriga e o peito, tentei abrir os olhos e vi uma data de sapatos a moverem-se na minha direcção. Senti o fim próximo e alguém me deu a mão.
Finalmente terás descanso.